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Eurípedes Miguel: “A POC está associada com menor escolaridade, mais desemprego, maior taxa de doenças sistémicas”

O psiquiatra brasileiro, professor naUniversidade de São Paulo, Yale e Duke, marcou presença no ICVS InternationalSeminar Series para abordar a perturbação obsessivo-compulsiva (POC) e mostraralgum do trabalho desenvolvido nos últimos anos. Eurípedes Miguel tem-sededicado mais recentemente às questões infanto-juvenis, procurando percebercomo detectar a doença mental antes de ela se manifestar.

 




Comecemos pelo “básico”. De que forma é que a POCse manifesta e como é que evoluímos, desde que começámos a tratar os sintomas?

A POC é um transtornopsiquiátrico que ocorre em 2 a 3% da população e em geral começa na infância.Aqueles que começam na infância são, com maior probabilidade, do sexomasculino, e quem começa mais tarde do sexo feminino. E o que caracteriza adoença é uma evolução crónica, embora haja um grupo de doentes que tenha umaevolução transitória (com altos e baixos).

Quando a doença se tornacrónica, e observamos isso em estudos de longo prazo, essas pessoas acabam porter uma menor escolaridade, mais dificuldades com o emprego, têm mais doençasmetabólicas e cardiovasculares, e têm um maior risco de morte prematura. Umapercentagem significativa destas pessoas pode ficar incapacitada. Então, é algoque merece uma atenção especial em termos de saúde pública, particularmentepela evolução negativa que podemos ter se não houver tratamentos.

Nas últimas décadas houve uma grande melhoria ao níveldos tratamentos face aos sintomas…

Os tratamentos evoluíramno sentido de termos técnicas psicoterapêuticas que cada vez mais se aprimoram,particularmente a exposição com prevenção de resposta é a técnica padrão. Asmedicações acho que não evoluíram tanto, encontrámos um grupo de medicamentosque atuam predominantemente sob o sistema serotorninérgico e que ajudamsignificativamente os pacientes.

Mas estamos a falar daterapia comportamental e da medicação num universo de 40% ou 60% de respostaquando usamos a abordagem combinada – que é a mais eficaz. Mas quando estespacientes não respondem e tornam-se resistentes, hoje temos um arsenal enorme depossibilidades que melhoram, apesar de nada muito significativo. Mas há umaevolução no investimento da investigação de novas abordagens, principalmentemenos invasivas.

Na Universidade do Minhotêm uma iniciativa muito original, de vanguarda, que envolve o neurofeedback¸ou seja seria o indivíduo,ele mesmo, a modular os seus sintomas. Se der certo, daqui a uns anos seriamuito barato de fazer e altamente seguro.

Nos pacientesrefratários, hoje existem técnicas neurocirúrgicas cada vez melhores e ajudam 50%em média de quem não responde a nada - como colocar um elétrodo numa áreaespecífica do cérebro para estimulação cerebral profunda ou lesionar áreasparticulares do cérebro. Também vejo avanços nas técnicas não-invasivas, como aestimulação magnética transcraniana.

Há casos de pacientes com POC em que não épossível ainda minimizar os sintomas, como é que prevê a evolução nestes casossem resposta?

Cerca de 60% responde aostratamentos habituais. Talvez 30 a 40% não melhore com os tratamentos atuais e combinados.Temos uma linha que envolve melhorar a abordagem farmacológica – osneurolépticos são as drogas mais usadas – e que ajuda um universo de mais 10,15% dos pacientes. E hoje, surgem as técnicas de neuromodulação não-invasivasque nos permitem avançar mais um pouco.

Atualmente, pensamos quepelo menos 1% dos pacientes, talvez um pouco mais, não responde a nenhuma formade tratamento convencional. É esse grupo que preenche hoje os nossosrequisitos, bastante restritos, para indicação neurocirúrgica. Quando fazemosintervenções neurocirúrgicas, temos as cirurgias ablativas (em que lesamos océrebro) e temos cirurgias reversivas (em que lesamos muito pouco o cérebro).

Uma parte do seu trabalho refere-se àidentificação de indivíduos com potencial de desenvolverem doenças mentais...

Como falei antes, a POC,quando se torna crónica, está associada com menor escolaridade, maisdesemprego, maior taxa de doenças sistémicas como as cardiovasculares. Ostratamentos de que eu falei ainda agora têm uma resposta parcial, não curam. Aideia que temos é que depois de a doença surgir, ajudamos, mas não conseguimosajudar muito.

Então, será que seinvestirmos, como fazemos noutras áreas da medicina, antes da doença semanifestar, quando ainda está no início, será que conseguimos atenuar a suaexpressão ou fazer com que ela nem apareça?

Partindo dessa premissa,começámos a tentar identificar indivíduos em risco. Ou seja, será queconseguimos criar marcadores para identificar um grupo de pessoas que estão emrisco e que têm mais chances de desenvolver a doença?

Uma das grandes linhas deinvestigação é a identificação de marcadores de indivíduos em risco. Porexemplo, temos um cohort de 2500 crianças, em que 1500 são filhos de alguém comdoença mental – pela questão genética e porque também existe influênciaambiental no desenvolvimento da criança. E nessas 1500 estuda clinicamenteessas pessoas, mas também imagem, genética, para procurar marcadores que sejamfatores de risco para o desenvolvimento da doença [o estudo conta já com noveanos].


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